A importância do Livro de Gênesis: Porque ler, entender e pregar Gênesis atualmente?

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RESUMO

O presente ensaio visa discorrer acerca da importância do Gênesis para os Cristãos. Para tanto, além da importância evidenciada e descrita a partir da leitura direta da Bíblia, se utilizou brevemente de análise bibliográfica de produções Teológicas para agregar ao tema. Ao final, como conclusão, se demonstra como o primeiro Livro da Bíblia Sagrada se constitui (a) como essencial para todo o desenvolvimento da narrativa Bíblica e (b) de grande importância para a vida de todo Cristão.

Palavras-chave: Importância de Gênesis. Narrativa Bíblica. Pregação.

1. INTRODUÇÃO

O Livro de Gênesis é o primeiro do Pentateuco, mas hoje, com a completude do cânon Bíblico, parece haver uma ênfase muito maior no Novo Testamento, o que não é de surpreender, visto que é nele que encontramos o clímax das promessas contidas no Antigo Testamento.

De outro lado, porém, seria esta uma boa razão pela qual se deixar de ler, entender, ensinar e pregar o Antigo Testamento? Ou, mais profundamente, o Novo Testamento substitui a utilidade do Pentateuco ou do Livro de Gênesis?

Neste cenário, como então algo tão antigo, escrito em outra cultura, pode ser útil para nós hoje? Será que deveríamos esquecer o Livro de Gênesis? Talvez não esquecer diretamente, mas não pregar? Afinal, se temos o Novo Testamento, por que usar ler, entender, ensinar e pregar um Livro com mais de três mil anos de história?

É a isto que este ensaio se dispõe a responder, procurando demonstrar a importância do Gênesis no contexto Bíblico e na vida do Cristão.

2. DESENVOLVIMENTO

As razões pelas quais o Gênesis é importante, são várias. A primeira, e principal, podemos afirmar com certeza, é esta: é revelação de Deus! Mas também há razões daí decorrentes que demonstram a continuidade da importância, mesmo diante das questões levantadas na introdução.

Em verdade, conforme se pretende demonstrar no decorrer deste ensaio, “Gênesis prepara o terreno para a plena compreensão da fé Bíblica” (LASOR, HUBBARD et BUSH, 2002, p. 16), pois aborda temas de essencial importância para a fé Cristã, como a criação pela palavra Divina, a rebelião humana, o julgamento, a graça, a eleição (Id. Ibid.) etc.

Dentre estes pontos citados, vejamos alguns a seguir.

2.1. Cosmogonia e Divindade

O termo cosmogonia basicamente remete à explicação da origem do universo. Há cosmogonias mitológicas (como a explicação da formação do universo a partir de deuses gregos que tiveram relações), científicas (como a teoria do Big Bang) e a cosmogonia Cristã (um único Deus Trino criou todas as coisas).
Isto posto, se pode verificar a importância da cosmogonia para a humanidade, em razão do perceptível interesse geral em descobrir a origem das coisas, bem como a razão de sua própria existência.

No livro de Gênesis temos a cosmogonia Bíblica, ou seja, a história da formação do universo segundo a Bíblia, e assim podemos ter o conhecimento de que tudo fora criado por Deus.

É bem verdade, se pode dizer, que em Colossenses 1:16-18 e 1 João podemos ver que tudo foi criado por Deus, mas ao lermos estas declarações em acordo com Gn 1, vemos uma expansão do conhecimento difundido em Gn. Isto é, não se trata de uma revelação totalmente nova, mas uma extensão do conhecimento prévio e uma confirmação da congruência das novas revelações, pois como Deus não se contradiz, podemos ver o acerto do Novo Testamento ao trazer revelações que se encaixam perfeitamente com aquilo que já foi revelado.

Deste modo, como poderíamos saber com mais profundidade acerca da relação de Deus com a natureza, se não por meio de Gênesis?

É neste maravilhoso Livro de Deus que encontramos a descrição da natureza e da humanidade como criação, e podemos então contemplar os céus, “obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que ali estabeleceste” (Sl 8.3) e assim glorificar a Deus pela criação.

Em suma, no tocante à cosmogonia, Gênesis deixa clara a ideia de “um único Deus que, com as próprias mãos, criou um ser humano; as demais coisas, em vez de serem divinas […] eram apenas obra das mãos de Deus” (PORTE JR., 2023, p. 77).

O desconhecimento da cosmogonia Cristã, baseada em Gênesis, poderia induzir as pessoas a buscarem deuses responsáveis pela criação, bem como poderia levar à falsa crença de que Deus é a natureza ou fruto dela, mas a correta cosmogonia – isto é, o adequado conhecimento da origem do universo – permite conhecer mais do único e verdadeiro Deus, e não ser enganado por falsas ideias religiosas e de origem do mundo

2.2. Queda e pecado universal

Um tema central das Escrituras é o pecado; e é logo nos capítulos iniciais de Gênesis que se explica como o relacionamento entre Deus e a humidade é ferido (SPROUL, 2020, p. 7).

Por que há pecado na humanidade? Como isto ocorreu? É em Gênesis que se encontram estas respostas!

Somente em Gênesis que se pode ver a base última para a depravação humana: o pecado de desobediência praticado por Adão e Eva (Gn 3).

É verdade que em Romanos 5 se pode ver a explicação de que o pecado de Adão levou a morte espiritual a todos, mas assim como já dito anteriormente, esta é uma revelação que toma por base uma revelação anterior, a saber, a queda de Adão. Sem a base de Gênesis 3 para explicar a queda, como se poderia compreender que todos nascem pecadores? Por quê? A resposta está no pacto de obras (Gn2) e na queda (Gn 3).

Além disto, em Gênesis também podemos notar atuações Divinas de misericórdia diante do pecado, e remissão parcial; à este título, podemos contemplar (a) Deus cobrindo a nudez de Adão e Eva; (b) Deus não matando Caim; (c) Deus proporcionando o dilúvio para acabar com os ímpios declarados, etc. Nestes episódios, inclusive, se pode notar como o pecado adentrou na raça humana de tal maneira que a tolerância ou a morte de meros humanos não podem acabar com o pecado.

Vê-se, ainda, a escolha de Jacó para originar o povo de Deus, mesmo que tenha enganado seu pai, evidenciando, assim, a soberana escolha de Deus por mero favor (graça) e não por merecimento.

2.3. Aliança e salvação

Em Gênesis também, vemos sobre aliança, a qual “diz respeito ao relacionamento entre o Criador e a sua criação” (ALISTAR et GRANT, 2005, p. 12, apud WELLUM et PETER, 2021, p. 18).

É nas alianças, portanto, que se estabelece o relacionamento de Deus com seu povo, e de Deus com a natureza (cf. Gn 9.3-15), e este relacionamento é pautado desta forma desde o princípio, como se observa da aliança Adâmica (Gn 2.16-17) e Noética (Gn 9.1-17).

Ainda, mesmo diante do cenário de depravação e pecado humanamente irremediáveis e crescentes, como se observa de Gênesis 3-11, o leitor é conduzido à aliança Abraâmica (Gn 12, 15, 17 e 22), quando, mesmo sem merecimento, um homem de uma região (Mesopotâmia), cidade (Ur) e família (Tera) idólatras é chamado por Deus para ser o precursor do povo de Deus, uma nação a ser abençoada por Deus e um meio de abençoar a todos os povos!

Tal profecia de benção a todos os povos se cumpre plenamente em Cristo, e precisamos de Gênesis para podermos compreender mais profundamente sobre o Messias, inclusive seus ofícios e sua origem genealógica (Mt 1.1-17); sobre isto, é importante ressaltar que é um pequeno trecho no Livro, Gn 14.17-24, que constrói a base Teológica para validar os ofícios de Jesus como Sacerdote e Rei simultaneamente!

Assim, é notório que a relação de Deus com o povo nunca foi descomprometida, mas sempre estabelecida por meio de uma aliança.

WELLUM e PETER (2021, p. 18), inclusive, destacam que “as alianças constituem a espinha dorsal da metanarrativa da Bíblia e, portanto, é essencial ‘interligá-las’ corretamente a fim de discernir com precisão ‘todo o conselho de Deus’ (At 20.27)”. De forma semelhante, JOHNSON (2023, pos. 352), discorrendo sobre os pactos, afirma que “a posição pactual, seja ela qual for, tem o poder de dar forma a todo o restante em que a pessoa crê sobre as Escrituras”.

Desta forma, é claro que a maior compreensão da Bíblia e do relacionamento de Deus com a humanidade e com a natureza exige a análise das alianças de Deus, o que, por sua vez, conduz à Gênesis, pois é lá que se narra, originalmente, as primeiras alianças, que estão relacionadas com todas as posteriores.

2.4. Narrativa Bíblica

Como fechamento dos pontos acima observados, se pode discorrer sobre o fato de que sem Gênesis, toda a Bíblia seria uma revelação incompleta e possivelmente incompreensível.

O que seria de Êxodo – que conta a história da libertação do povo do Egito – sem o conhecimento de quem é este povo, qual sua origem, porque foram escravizados, porque eles foram escolhidos e os egípcios foram castigados, onde esta escravidão foi profetizada, e em qual contexto?

Com a ausência de todo o contexto imediato de Gênesis, grande parte do encanto de Êxodo se perde. Isto ocorre porque é a partir da leitura de Gênesis que vemos que um povo foi criado, se revoltou contra Deus e escolheu praticar o mal, mas ainda assim, Deus, por amor e misericórdia, escolheu uma linhagem humana (Noé, Sem, Abraão, Isaque, Jacó/Israel) para criar um povo seu e o abençoar mesmo sem merecimento, por graça e amor. Sobre este povo eleito para ser abençoado, Deus afirmou que eles seriam feitos escravos, mas que Deus libertaria o povo e então castigaria aqueles que os escravizaram.

Sem este pano de fundo, a escolha pode parecer injusta; sem o contexto, as profecias podem não ser vistas; sem o conhecimento de Gênesis, não se veria a soberania de Deus na criação do seu próprio povo.

Gênesis é a base da história Bíblica, pois é a partir deste Livro que toda a narrativa Bíblica se desenvolve e o plano redentivo é apresentado.

Some-se à isto que a história da salvação – tema que percorre toda a bíblia – se inicia com a condenação, a condenação se inicia com o pecado, e o pecado com a Lei, e tudo isto encontra sua origem em Gênesis, estando ali a base sobre a qual se constrói as doutrinas da aliança, do pecado, da condenação e da salvação.

Portanto, é possível se notar que a inexistência deste Livro complicaria e até mesmo impediria o pleno conhecimento de todo o desenrolar da narrativa Teológica da Bíblia.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os pontos vistos neste ensaio são de destaque, mas não são os únicos motivos que declaram a importância do referido Escrito.

Desta maneira, a fim de responder às questões iniciais, registre-se que neste tão antigo Escrito, inspirado por Deus – Gênesis –, se demonstra a transcendência do Deus que criou tudo a partir do nada; se retrata a imanência de Deus, que interage e age no mundo; fica demonstrada sua inspiração por meio das profecias ali presentes; vê-se o poder e a soberania de Deus ao criar tudo que existe (Gn 1 e 2); discorre-se sobre a queda e a base para a doutrina da depravação total (Gn 3 e Rm 5); encontra-se a base para a submissão da mulher ao marido, bem como denota a finalidade do homem (Gn 2 e 3); indica-se que viria um descendente da mulher que acabaria com satanás (Gn 3.15); evidencia-se a maldade humana proliferar após a queda (Gn 3-11); encontra-se a eleição de Deus (Gn 12); demonstra-se a salvação por meio da fé (Gn 15); descreve-se a aliança garantida unicamente por Deus (Gn 15.17); contém a profecia de Israel de ser escravizado (Gn 15.13); explica-se a origem do povo de Israel (Gn 12-50); encontra-se o caráter do nosso Deus por meio das histórias narradas em Gn (1-50), entre tantas outras coisas que se pode aprender.

Assim, é evidente que o Cristão não pode esquecer Gênesis, e tampouco o Novo Testamento substitui o Antigo, porque sem o primeiro se perde a base de toda a revelação Bíblica e se deixa de ver a beleza de Deus revelada em todo Texto inspirado.

De semelhante modo, como bem ensina PORTE JR. (2023, p. 154) Gênesis é um livro para ser pregado hoje, pois nele encontramos compaixão, compassividade, misericórdia, longanimidade e a intenção de Deus em resgatar a humanidade perdida.

Desta maneira, resta notória a importância da leitura, compreensão e pregação de Gênesis, posto que é partir dali que toda a Escritura se desenvolve, sendo essencial para a devida compreensão de toda a revelação Divina, especialmente em temas básicos como criação, pecado, federalismo, redenção, atributos Divinos, casamento e relacionamento pactual com Deus.

4. BIBLIOGRAFIA

JOHNSON, Jeffrey. O Reino de Deus. 1ª Ed. São Paulo: O Estandarte de Cristo, 2023.
KIDNER, Derek. Gênesis: Introdução e comentário. 1ª Ed. São Paulo: Vida Nova, 1979.
LASOR, Willianm Sanford; HUBBARD, David A; BUSH, Frederic W. Introdução ao Antigo Testamento. 2ª Ed. São Paulo: Vida Nova, 2002.
MIEROOP, Mar Van de. Historia del Próximo Oriente Antiguo CA 3000-323 A.E.C. Traducción: Sara Arroyo y Andrés Piquer. [s.l.]: Editora Trotta, 2020.
PETER, J. Gentry; WELLUM, Stephen J. O Reino de Deus através das alianças de Deus. Tradução de Susana Klassen. São Paulo: Vida Nova, 2021
PORTE JR., Wilson. Pentateuco: Conciliando a história judaica com a fé cristã, São Paulo: Thomas Nelson Brasil, 2023.
SPROUL, R. C. (Ed.). Bíblia de Estudo da Fé Reformada. 2ª Ed. São Paulo: Editora Fiel, 2022.

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