Sabedoria, um atributo comunicável que os jovens não têm buscado

Autor

  • Gustavo é um jovem cristão, de persuasão reformada, seminarista pelo Seminário Martin Bucer. Também é formado em Pedagogia pela UFMS, e Especialista em Educação à Distância e Direção e Supervisão Escolar pela FSL.

RESUMO

O futuro da fé cristã está em risco? Este ensaio analisa o impacto das redes sociais na formação espiritual dos jovens evangélicos e propõe um retorno à sabedoria. Este é um atributo comunicável de Deus, por Sabedoria Ele se revela a nós, para assim podermos conhecê-lo. Se a próxima geração herdará a Igreja, é preciso perguntar: estão sendo discipulados pelo Conhecimento de Deus ou por shorts, reels e carrosséis? O chamado é urgente: conhecer e prosseguir em conhecer o Senhor como Ele se revelou a nós.

key words: Sabedoria; Atributos Comunicáveis; Juventude; Redes Sociais; Igreja

1. INTRODUÇÃO

O evangelicalismo atual tem sido marcado por uma geração de jovens que em sua maioria têm entendido o testemunho de sua fé, a aquisição de conhecimento doutrinário e também a própria realidade da Igreja, por meio das vivências digitais. A busca por se tornar influenciador, por se lançar em alguma plataforma, por capilarizar conteúdos virais, ou então encontrar esses conteúdos para consumir, estão basicamente moldando a forma como eles estão conhecendo e se relacionando com Deus. Viralizar parece ser uma meta comum para muitos jovens, inclusive dentro das igrejas. A ideia de ser seguido tem sido vista como discipulado, devocionais emocionalista e de autoajuda, com afirmações rasas tem sido sinônimo de vida cristã piedosa, sem contar as sátiras, piadas e debates online como forma de se promover.

Tal cenário geracional é preocupante. De forma simplificada podemos verificar que uma das últimas gerações que nasceu sem uma imersão tecnológica que moldasse os aspectos morais e os valores das pessoas, foi por volta dos anos 1990 aos anos 2005, daí e diante a internet e posteriormente as redes sociais lapidaram as últimas gerações determinando quais valores, metas, profissões, formas de remuneração que deveriam ser buscadas. O sociólogo Manuel Castells (2002) cunhou a expressão “Era da Informação”[1] ainda nos anos 90, definindo os rumos que viriam a moldar a sociedade. Nos anos 2000 esse título chega à língua portuguesa, ainda atual e retratando corretamente o que estava se construindo. Dos anos 2005 em diante as tecnologias dos governos, universidades e grandes empresas, começam a baratear e paulatinamente se inserem no cotidiano das sociedades mundo afora, e o retrato que temos hoje é resultado do avanço dessas tecnologias e de sua acessibilidade.

Mas como igrejas serão sustentadas no futuro pela geração de jovens que receberão o bastão dos nossos pais, tios e avós na fé, se o conhecimento que possuem foi buscado seguindo influenciadores, conteúdos e lives em redes sociais, ou em livros de autoajuda, e livros que se tornaram modinha para a geração? Diante desse contraste geracional, e do grande risco que esse quadro apresenta, pretende-se por meio deste ensaio curto resgatar a sabedoria como atributo comunicável e incomunicável de Deus, que pode, por sua vez,  representar uma semente de esperança para que a juventude atual seja despertada para um aprofundamento na busca pelo conhecimento de Deus e da sua revelação de si mesmo para sua Igreja.

2. DESENVOLVIMENTO

A petulância de uma geração que sustenta seu martyrion (testemunho) por redes sociais é lamentável, haja vista o significado testemunhar sobre a fé que se professava desde os tempos bíblicos e durante toda a história da Igreja. A verdadeira defesa da fé cristã nas redes sociais hoje, provavelmente geraria cancelamentos e boicotes em questão de pouquíssimo tempo. Pois temas como: Inferno, Juízo Divino, Demônios, Verdade Absoluta do Evangelho de Cristo Jesus, Justiça Divina, Eleição, Predestinação, A Providência e a Presciência de Deus, dentre tanto outros temas teriam que ser citados… Mas esse não é o conteúdo que atrai seguidores, que gera engajamento, por isso muito raramente são mostrados, ou escolhidos para serem tema de publicações.

Temas assim exigem um estudo muito mais aprofundado do que o mero consumo de conteúdos rápidos, cortes de sermões, ou carrosseis de influenciadores, e pastores famosos. Esse tipo de conhecimento é principalmente consumido por corações sedentos por conhecer ao Deus que se revela primordialmente, e não por garimpeiros de polêmicas, ou de conteúdo “relevante” para atrair seguidores.

Pink (1990) afirma sobre a Onisciência de Deus: “O conhecimento infinito de Deus deveria encher-nos de assombro. […] Nenhum de nós sabe o que o dia nos trará, mas todo o futuro está aberto ao Seu olhar onisciente”[2]. Observa-se que o sentimento que o conhecimento de Deus deveria gerar em nós suas criaturas, é de assombro, e é um tanto quanto claro a razão para isso, nada está oculto a Seus olhos soberanos, das menores às maiores questões deste mundo criado, tudo está patente aos seus olhos, e não só patentes, mas acontecem por serem Sua vontade em ação!

E aqui precisamos lembrar que é exatamente tudo, como nos afirma o autor bíblico: “E não há criatura que não seja manifesta na sua presença; pelo contrário, todas as coisas estão descobertas e patentes aos olhos daquele a quem temos de prestar contas.” (Hb 4:13). E não estamos tratando apenas de fatos, mas também de pensamentos como nos afirma a Escritura em Ezequiel 11:5: “Caiu, pois, sobre mim o Espírito do Senhor e disse-me: Fala: Assim diz o Senhor: Assim tendes dito, ó casa de Israel; porque, quanto às coisas que vos surgem à mente, eu as conheço” (sem grifo no original) . Torna-se latente a razão para que Pink compreenda “assombro” como a reação coerente do intelecto humano para lidar com tal conhecimento sobre Deus.

Pink (1990) afirma ainda: “Quão solene é este fato: nada se pode esconder de Deus! […] Embora sendo Ele invisível para nós, não o somos para Ele”[3] Essa é a solenidade que fez o salmista afirmar “Tal conhecimento é maravilhoso demais para mim: é sobremodo elevado, não o posso atingir” (Sl 139:6). Pink está se referindo a um sentimento característico daqueles que provam da experiência de buscar conhecer a Deus como Ele quis revelar-se a nós, é a busca de alguém que está intentando, mesmo que sem sucesso, esgotar as formas possíveis que Deus liberou em sua criação para conhecê-lO. Ora, não há como escapar da seguinte reflexão: como tal assombro e maravilhamento poderá se perpetuar em uma geração que facilmente perde horas em frente a uma tela, mas não suporta trinta minutos sentado em uma cadeira frente a um texto bíblico, buscando meditar, ansiando para que a revelação de Deus, manifesta em Sua Palavra, possa adentrar as profundezas de sua vida?

Não é difícil pensar que isso esteja longe de ser uma realidade para essa geração. Um jovem no passado que viveu antes de Pink teve algumas de suas reflexões e estudos publicadas postumamente, revelando a distinção de uma juventude vivida para conhecer a Deus, frente a realidade que vivemos hoje, estamos nos referindo aqui a Jonathan Edwards (1703–1758), o Pr Heber C. C. Jr. afirma que “esse pastor congregacional nascido em East Windsor, Connecticut, foi, possivelmente, o maior pensador da América Colonial (o período anterior à independência norte-americana, em 1776)”[4].

Edwards em busca da defesa do sentido de Deus ter criado o mundo afirma, que o  grande conhecimento de Deus, que por meio das coisas criadas, revela sua assombrosas onisciência, está dado a nós de forma comunicável justamente para que pudéssemos conhecer não só sua criação, mas primordialmente à Ele mesmo! Em suas palavras: “Parece ser algo em si mesmo adequado e desejável que as gloriosas perfeições de Deus sejam conhecidas, e as operações e expressões delas sejam vistas por outros seres além dele mesmo.”[5], em outro trecho ele afirma:

É algo infinitamente bom em si mesmo que a glória de Deus seja conhecida por uma gloriosa sociedade de seres criados. E que haja nesses seres um crescente conhecimento de Deus para toda a eternidade é algo digno de ser considerado por ele, a quem compete determinar o que é mais adequado e melhor. Se a existência é mais digna que a de ciência e a não entidade, e se qualquer existência criada é em si mesma digna de ser, então isso se aplica ao conhecimento; e, se se aplica a qualquer conhecimento, então também se aplica ao tipo mais nobre de conhecimento, isto é, o de Deus e sua glória. Esse conhecimento é uma das partes mais sublimes, mais reais e substanciais de toda a existência criada […][6]

É igualmente justo considerar adequado que no entendimento exista uma ideia correspondente ao glorioso objeto e que na vontade exista um sentimento correspondente. Se a perfeição em si é excelente, o conhecimento dela é excelente, e da mesma forma é excelente a estima e o amor por ela. E, como é adequado que Deus ame e estime sua própria excelência, adequado é também que ele valorize e estime o amor por sua excelência. E, se convém a um ser valorizar grandemente a si mesmo, é adequado que ele ame se tornar valorizado e estimado.[7]

Edwards é exuberante em sua retórica e na organização de seus argumentos. Esta é uma obra de grande impacto, que atravessou gerações como um marco de fé e aprofundamento doutrinário para muitos cristãos. Assim, não podemos nos distanciar da compreensão do atributo comunicável de Deus: a sabedoria. Ela reflete o atributo incomunicável da onisciência divina, mas se manifesta na humanidade por meio da imagem e semelhança de Deus em nós. Edwards, com precisão, nos conduz à razão central pela qual Deus nos comunicou tal atributo: para que o conhecêssemos. Isso está em plena harmonia com o argumento bíblico tanto no Antigo quanto no Novo Testamento.

Jeremias nos afirma:

Assim diz o Senhor: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte na sua força; não se glorie o rico nas suas riquezas, Mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me entender e me conhecer, que eu sou o Senhor, que faço beneficência, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o Senhor. (Jr 9:23,24)

Oséias também diz algo semelhante: “Então conheçamos, e prossigamos em conhecer ao Senhor; a sua saída, como a alva, é certa; e ele a nós virá como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra.” (Os 6:3).

Já no Novo Testamento verificamos essa mesma tônica: “E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17:3), Paulo a Timóteo recomenda: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade. (2Tm 2:15).

Pode-se observar que em toda a Escritura, não há pistas ocultas e de difícil identificação a respeito do dever de buscar conhecer ao Deus que se revela, na verdade há afirmações claras, diretas, verdadeiros imperativos de profetas, apóstolos, e até mesmo do próprio Cristo para que se busque conhecer ao Senhor. João inclusive diz que um dos frutos de se conhecer a Deus é a manifestação do amor ao próximo: “Amados, amemo-nos uns aos outros; porque o amor é de Deus; e qualquer que ama é nascido de Deus e conhece a Deus.” (1 Jo 4:7).

Há necessidade de observar essa dupla característica atributiva da Sabedoria como sendo comunicável e incomunicável, Franklin Ferreira e Alan Myatt (2007), descrevem essa característica da seguinte forma:

Deus é onisciente (Sl 139; Jo 21.17; Cl 2.3; 1Jo 3.20; Ap 20.12). Ele tem capacidade de inteligência e raciocínio. Não existe mistério para Deus. Devemos ter em mente que os atributos de inteligência e raciocínio de Deus são discutidos aqui porque a inteligência e o raciocínio do ser humano são um reflexo da imagem de Deus. Porém, existem aspectos da inteligência de Deus que não são comunicáveis, pois ela é de uma qualidade distinta da inteligência do homem. Inteligência e raciocínio são atributos comunicáveis. Todavia, a extensão, a qualidade e a originalidade desses atributos são incomunicáveis [8].

A onisciência de Deus possui dois aspectos. O primeiro deles é que Deus tem um autoconhecimento perfeito e total. Ele também conhece todas as realidades, passado, presente, futuro, completamente, até os pormenores mais insignificantes (Is 41.21-23). O segundo aspecto da onisciência divina é que ela necessariamente é original. Deus não deriva o seu conhecimento de uma outra fonte porque a existência de toda a criação depende dele[8].

Dessa maneira, podemos compreender como esse atributo pode ser comunicável e incomunicável. E reforça ao mesmo tempo o que pretende aqui. Diante da cognoscibilidade de Deus revelada à sua criação, em especial o Homem, é absurdamente inapropriado que se permita a perpetuação de uma futura geração de crentes, que terá a missão de dar testemunho e defender a sua fé se o fizerem de forma rasa, desafeiçoada, e sem o afinco necessário. E não há nada mais convidativo e deslumbrante do que se lembrar que a razão pela qual pensamos, conhecemos, aprendemos, e podemos desenvolver e receber sabedoria uns com os outros, seja necessariamente para que “conheçamos e prossigamos em conhecer” o Senhor.

3. CONCLUSÃO

Que possamos ver futuramente uma geração que “maneja bem a palavra da verdade” e que anseie por pensar, produzir e, sim, divulgar conteúdos até mesmo pelas mídias sociais que sejam robustos em teologia, mas que não tenha sido formada por fontes duvidosas e rasas, mas sim pela fonte original e primordial que é a Palavra de Deus, seja ela diretamente, ou ela interpretada pelos fiéis servos que derramaram sangue a fim de preservá-la para nós. Que essa grande nuvem de testemunhas veja os jovens cristãos crescendo em sabedoria e conhecimento de Deus, que quis comunicar este Seu atributo, e, além disso, nos permite conhecê-lo.

4. BIBLIOGRAFIA

CASTELLS, Manuel. A era da informação: economia, sociedade e cultura. Volume I: A sociedade em rede. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002.

EDWARDS, Jonathan. O Fim para o qual Deus Criou o Mundo. Editora Mundo Cristão, 2019.

FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. Vida Nova, 2007.

PINK, A. W. Os atributos de Deus. São Paulo: PES, 1990.


[1] CASTELLS, Manuel. A era da informação: economia, sociedade e cultura. Volume I: A sociedade em rede. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002, sem grifo no original.

[2] PINK, A. W. Os atributos de Deus. São Paulo: PES, 1990. p.20

[3] Ibidem., p.16

[4] EDWARDS, Jonathan. O Fim para o qual Deus Criou o Mundo. Editora Mundo Cristão, 2019.

[5] Ibidem., p.35 (e-book)

[6] Ibid.

[7] Ibidem., p.37 (e-book)

[8] FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. Vida Nova, 2007.

One thought on “Sabedoria, um atributo comunicável que os jovens não têm buscado

  1. Louvo a Deus por essa publicação pois se faz necessária para essa era tecnológica e sou grata a Deus pela benção deste conteúdo ser divulgado neste tempo, trazendo tantos alertas importantes para o futuro da igreja. E oro para que Deus desperte mais jovens para serem fiéis à sua verdade . Que benção Gustavo por essa matéria que urge neste tempo e que seja voz para o futuro.

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