RESUMO
Palavras-chave:
1. INTRODUÇÃO
Quando se pensa a influência ou relevância das filosofias helênicas do período neotestamentário, há um relato que geralmente vem logo à mente: o de Paulo no areópago de Atenas (cf. At 17.16-34). Apesar de ser um texto teologicamente rico em si, uma série de informações hermenêuticas são fundamentais para entendermos mais profundamente as implicações dos argumentos paulinos para o seu contexto, e, então, para o nosso atual.
Devido ao curto escopo deste trabalho, proponho um foco em um único conceito, o de ressurreição, o qual considero ser o tópico mais importante, e busco compreender por que tal doutrina é tão chocante ao público de Paulo. Para isto, apresentarei rapidamente o contexto histórico em questão de Paulo, e apontarei as dicas narrativas do autor de Atos para a supremacia do tema da ressurreição na pregação do apóstolo. Depois, refletirei sobre o contexto filosófico dos gregos ali presentes, encurtando o olhar ao enfocar as duas escolas filosóficas citadas explicitamente no próprio texto, a dos epicureus e a dos estoicos. Finalmente, contrastarei tais pensamentos com o conceito de ressurreição, e destacarei um outro trecho famoso, de 1 Coríntios 15, para definir a importância da ressurreição para os cristãos.
2. DESENVOLVIMENTO
O apóstolo Paulo esteve em Atenas, em meados de sua Segunda Viagem Missionária (cf. At 15.36), na região da Acaia, por volta de 50 d.C.[1], após os eventos de complicação, sofrimento e perseguição em Filipos e, depois, em Bereia. Nessas circunstâncias missionárias, de evangelização e perseguição, Paulo muito se indignou com a idolatria daquele povo, de modo que resolveu pregar e debater com os gentios (e também com judeus) dali (At 17.16-17).
Como bom orador, e carregado de uma poderosa mensagem, Paulo e seu discurso atraiu a atenção de muitos filósofos, de modo que o levaram ao Areópago, um local de destaque para não só ouvir melhor as doutrinas ensinadas, como também julgá-las[2]. Isto mostra o peso dessas palavras diante do modo de pensar grego da época. Mas, alguém pode perguntar, o que exatamente na pregação de Paulo escandalizou tanto os gregos?
Uma análise mais aprofundada de todo o discurso apontaria para não só um, mas vários tópicos levantados por Paulo para explicar o evangelho, que não são aleatórios ou alheios, pelo contrário, contrastam com pontos essenciais das filosofias tanto dos epicureus quanto dos estoicos, grupos presentes ali (cf. At 17.18). Entretanto, há um assunto que merece destaque, e será o foco do nosso estudo. Este é central para o debate, uma vez que é literariamente destacado na narração do autor de Atos, no texto em questão:
E alguns dos filósofos epicureus e estoicos contendiam com ele, havendo quem perguntasse: Que quer dizer esse tagarela? E outros: Parece pregador de estranhos deuses; pois pregava a Jesus e a ressurreição. (…) porquanto estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os mortos. Quando ouviram falar de ressurreição de mortos, uns escarneceram, e outros disseram: A respeito disso te ouviremos noutra ocasião. A essa altura, Paulo se retirou do meio deles. (At 17.18, 31-33)[3]
Lucas, ao sintetizar a mensagem de Paulo, no verso 18, como uma pregação sobre Jesus e a ressurreição, dá o destaque para o tema principal em questão. O mesmo ocorre no fim do relato, quando escreve que foi por ouvirem sobre ressurreição que escarneceram de Paulo. Naturalmente, uma próxima pergunta se constrói: por que epicureus e estoicos são tão avessos à ideia da ressurreição? Para respondê-la, faz-se necessário compreender tais filosofias.
O epicurismo, fundado por Epicuro (341-271 a.C.), era constituído por um “grupo de amigos ou congregação, que, desiludidas com a vida, procuravam paz e harmonia na própria vida”[4], sendo este o prazer que buscavam na vida, que era tediosa e sofrida. Não viam propósito na vida, porque pensavam que não havia uma ordem na existência, um propósito maior, inclusive compreendendo os deuses como simplesmente materializados na vida cotidiana, não havendo um Ser anterior e ordenador da história[5].
Já “o estoicismo pode ser entendido como ‘uma unidade de articulação racional (lógica), em vista de um perfeito conhecimento da natureza (física), possibilitando atitudes de acordo com a estrutura do mundo (ética)’”[6], ou seja, com o devido conhecimento da natureza (física), se articula racionalmente (lógica) a fim de atuar no mundo (ética). Eles “pensavam no divino como um princípio de razão que permeia o cosmos”[7]. Criam, portanto, conforme palavras de um poeta, provavelmente epicureu[8], citado pelo próprio Paulo em seu discurso (cf. At 17.28), que viviam, se moviam e eram sustentados por esse logos providencial, que era totalmente material, de modo que deveria ser louvado pelo uso da razão, enquanto vivesse. “Ao morrer, volta para o Uno”[9], pois a morte “seria apenas o fim da sensação e a dissolução dos átomos”[10].
Assim, em ambas as escolas filosóficas é possível notar o desprezo pela vida material, juntamente da noção de que esta é a única existente, de modo que, se há alguma forma de redenção para o sofrimento, se trata da ausência de dor e plenitude de prazer terreno (para os epicureus) ou do viver plenamente racional até a união com a existência ordenada na morte, que é algo indiferente (para os estoicos).
Portanto, a doutrina estrangeira trazida por Paulo, a saber, de que havia um único Deus criador de toda a vida e providencial em sua ordenação de toda a História antes de tudo existir; que não carece da adoração pela razão humana; e pode ser tateado pelos gregos a fim de que fosse encontrado, uma vez que a todos gerou através de um só, essa doutrina é inconcebível para os gregos da época. Mas o grande absurdo ainda é outro, a saber, que esse Deus tão bom e soberano escolheu trazer um homem (segundo suas concepções, corrupto e tolo) de volta da morte (estado perfeito de união com o Uno) a fim de julgar todo o mundo (uma preocupação de um Deus que se importa com a Sua criação). Afinal, para quem tivesse uma visão de mundo epicurista seria difícil pensar em como após a morte, o início da dissolução dos átomos, o processo pudesse ser interrompido ou revertido pela ressurreição. Já os estoicos percebiam a morte como um fato inevitável e, por isso mesmo, deviam se acostumar com a ideia de aceitá-la. A morte, de acordo com o estoicismo, apesar de física e biologicamente negativa, é algo moralmente indiferente (adiáphora).[11].
O que é digno de nota diante disso é que, em contrapartida, para o cristianismo, a ressurreição é tão fundamental e maravilhosa quanto para o epicurismo e para o estoicismo ela é terrível. O texto que mais esclarece isto está na primeira carta de Paulo aos Coríntios:
[…] se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. E ainda mais: os que dormiram em Cristo pereceram. Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens. (1Co 15.16-19)
Para o cristianismo, a felicidade não se encontra na paz interior, conforme os epicureus, a menos que esta se refira à reconciliação com Deus e à plena satisfação do próprio ser Nele; também não está no viver racional da melhor maneira possível, enquanto isto não significar utilizar da razão para crer em Deus com fé e glorificá-lo com a sua vida. E tudo isso somente firmados em uma esperança em Cristo que transcende essa vida, crentes de que,
de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem. (…) Porque, assim como, em Adão, todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo. (…) E, então, virá o fim, quando ele entregar o reino ao Deus e Pai, quando houver destruído todo principado, bem como toda potestade e poder. (…) O último inimigo a ser destruído é a morte. (…) Quando, porém, todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então, o próprio Filho também se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos. então, se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? (…) Graças a Deus, que nos dá a vitória por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo. (1Co, 15.20, 22, 24, 26, 28, 54-55, 57)
3. CONCLUSÃO
O apóstolo Paulo esteve em Atenas, onde se revoltou com a idolatria dos que ali viviam, o que o levou a dissertar sobre o evangelho entre eles. Sua mensagem intrigou muito os pensadores gregos dali, o que os levou a o questionarem acerca de sua doutrina. Então, Paulo realizou seu famoso discurso, exortando-os a se renderem à verdadeira fé.
Dentre os vários temas teológicos tratados por Paulo, um merece destaque, o da ressurreição, que parece ser central, de acordo com as pistas narrativas de Lucas, que sintetiza a pregação paulina com este conceito. Além disso, também descreve que é esse assunto que escandaliza mais os gregos.
São duas as filosofias em questão, o epicurismo e o estoicismo. Os epicureus buscavam prazer através da paz interior e não viam propósito na vida. Já os estoicos almejavam utilizar a razão para viverem da melhor forma possível, indiferentes aos acontecimentos da história. Assim, ambos consideram a vida material como inferior, procurando satisfação no isolamento e satisfação, por parte dos epicureus, e na ética e na indiferença, por parte dos estoicos.
Esses entendimentos filosóficos todos contrastam com o evangelho anunciado por Paulo, mas o mais absurdo da doutrina cristã aos gregos é, de fato, a ressurreição, por se tratar de retornar à impureza, além de ser inconcebível ao epicureu e irrelevante ao estoico. Entretanto, a ressurreição é extremamente relevante ao cristianismo, pois não há felicidade ao cristão se a sua esperança se limitar a esta vida terrena. Por isso, deve-se crer e desejar a ressurreição dos corpos, e ser grato a Cristo por esta vitória sobre a morte.
4. REFERÊNCIAS
ATOS. In.: BÍBLIA. Tradução de João Ferreira de Almeida: Edição Revista e Atualizada, 2 ed. Sociedade Bíblica do Brasil: Barueri, 1993.
2 CORÍNTIOS. In.: BÍBLIA. Tradução de João Ferreira de Almeida: Edição Revista e Atualizada, 2 ed. Sociedade Bíblica do Brasil: Barueri, 1993.
NASCIMENTO, Rodrigo Nunes do. Paulo em Atenas: afinidades e estranhamentos entre o apóstolo dos gentios e os filósofos epicureus e estoicos. REFLEXUS: Revista de Teologia e Ciências das Religiões, v. 14, n. 24, p. 697-715, 2020. Disponível em: <https://revista.fuv.edu.br/index.php/reflexus/article/view/1141/2222>. Acesso em: 14 dez. 2024.
SILVA, Antonio Wardison C. O panorama histórico-filosófico no tempo de Paulo: o helenismo. Revista de Cultura Teológica, v. 18, n. 72, p. 23-53, 2010, p. 37. Disponível em: <https://revistas.pucsp.br/culturateo/article/view/15373>. Acesso em: 6 dez. 2024.
SPROUL, R. C. (org). Bíblia de Estudo da Fé Reformada. São José dos Campos: Editora Fiel e Ligonier Ministries, 2021.
[1] Nascimento, Rodrigo Nunes do. Paulo em Atenas: afinidades e estranhamentos entre o apóstolo dos gentios e os filósofos epicureus e estoicos. REFLEXUS: Revista de Teologia e Ciências das Religiões, v. 14, n. 24, p. 697-715, 2020.
[2] Sproul, R. C. (org). Bíblia de Estudo da Fé Reformada. São José dos Campos: Editora Fiel e Ligonier Ministries, 2021.
[3] Almeida Revista e Atualizada (a mesma para as demais citações diretas de textos bíblicos).
[4] Silva, Antonio Wardison C. O panorama histórico-filosófico no tempo de Paulo: o helenismo. Revista de Cultura Teológica, v. 18, n. 72, p. 23-53, 2010, p. 37.
[5] Ibid.
[6] Lara, T. A. A Filosofia nas suas origens, p. 186. Citado em Ibid., p. 38.
[7] Sproul (org), op. cit., p. 1947.
[8] Silva, op. cit.
[9] Ibid., p. 38-9.
[10] Nascimento, op. cit., p. 711
[11] Ibid, p. 711.




