Epicurismo e Cristianismo: Correlações e distinções

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RESUMO

O presente artigo visa, por meio de pesquisa bibliográfica e de forma sucinta, apresentar uma breve análise do Epicurismo à luz da Bíblia. O artigo apresenta correlações e diferenças entre a citada corrente filosófica e o Cristianismo.

Palavras-chave: Filosofia grega; Epicurismo; Novo Testamento; Bíblia Sagrada.

1. INTRODUÇÃO

Bem se sabe que as correntes filosóficas influenciam o pensamento dos aclamados pensadores de todas as épocas, bem como, por fim, atingem também a sociedade, impactando em suas posições e atitudes frente ao mundo.

Durante a escrita do Novo Testamento (primeiro século depois de Cristo), não foi diferente, mas havia, naquele tempo, correntes filosóficas, a saber, as de origem gregas, oriundas do denominado Período Helênico, circunscrito entre a morte de Alexandre, o Grande, em 323 a.C. e a tomada do Egito pelo Império Romano em 30 a.C.[1], no entanto a cultura Grega, por meio do Império Romano que dominava sobre Israel, era abundantemente disseminada, e assim certamente seus pensamentos chegaram aos Judeus e Cristãos habitantes da dita região[2]. Inclusive, a influência cultural Grega no período do Novo Testamento é notória até mesmo nos Escritos Bíblicos, posto que foram escritos justamente em Grego Koine/Kini, desenvolvido no contexto helênico[3].

Isto posto, tendo em vista a influência da filosofia no pensamento social, o presente trabalho se propõe a descrever, ainda que brevemente, uma das principais correntes filosóficas do sec. I d.C. que teve alguma relação com os Escritos do Novo Testamento. Isto porque o conhecimento e a compreensão do pensamento filosófico têm o poder de auxiliar no entendimento Bíblico, pois essa é uma das peças de composição do contexto da vida e do escrito neotestamentário, sendo um dos pontos essenciais de uma boa hermenêutica. Além disso, mesmo correntes antigas podem influenciar pensamentos modernos, sendo útil as conhecer e se posicionar adequadamente diante desse cenário.

2. DESENVOLVIMENTO

A Bíblia Sagrada nos diz que Paulo discutiu com alguns dos “filósofos epicureus e estóicos” (At. 17.18). Logo, podemos saber, certamente, que tais filosofias estavam presentes na época do Novo Testamento.

Na presente oportunidade, limitar-se-á à análise do epicurismo e sua relação com a doutrina Bíblica, o que disporá a seguir.

2.1. A filosofia Epicurista

Essa escola tem sua origem em Epicuro, o qual nasceu em 341 a.C.[4] e faleceu em 271[5].

Para esta corrente, a morte é o fim da consciência[6], defendendo que “a morte, portanto, o mais terrível dos males, não é nada para nós, visto que, quando somos, a morte não vem, e, quando a morte vem, nós não somos”[7]. Enfim, há clara rejeição da denominada “vida após a morte” ou vida eterna

Então, nessa passageira vida, segundo o epicurismo, se temos felicidade, temos tudo[8], e assim o sentido da vida é a felicidade. Mas o que seria uma vida feliz? Epicuro defende que a essência e o objetivo de uma vida feliz é “a saúde do corpo e a tranquilidade da alma”[9], de tal modo que o prazer, isto é, “a ausência de dor no corpo e de problemas na alma”[10], é o “alfa e o ômega de uma vida feliz”[11]. Portanto, a finalidade da vida epicurista é se livrar da dor e do sofrimento, tendo saúde física e espiritual. Isso, porém, não significa que os prazeres devam ser de qualquer tipo, pois o pai dessa corrente também ensina que “muitas vezes consideramos as dores superiores aos prazeres quando a submissão às dores por muito tempo nos traz como consequência um prazer maior”[12], e de forma semelhante um prazer momentâneo, se trouxer maior sofrimento futuro também deve ser rejeitado, porque o objetivo final de vida para os Epicureus é a denominada ataraxia, isto é, a ausência de dor e sofrimento, o prazer calculado por sua utilidade[13], de forma que “convém trilhar um caminho de prudência e moderação a fim de alcançar um estado de sereno equilíbrio, que é o supremo prazer e, portanto, o bem mais elevado”[14]. O prazer em Epicuro, deve ser moderado e sábio, para que seja mais prazeroso no tempo.

À luz dessa posição, o caminho recomendado, portanto, para se cumprir o objetivo da vida, a essência da vida feliz, é que nós devemos nos  contentar “com pouco se não tivermos muito, sendo honestamente persuadidos de que têm o mais doce gozo da luxúria os que menos precisam dela, e que o que é natural é facilmente obtido e apenas o vão e inútil difícil de ganhar”[15]; a vida, dessa maneira, se resume a ser satisfeito com o que se tem, promovendo saúde ao corpo e tranquilidade à alma.

A visão acima denota claramente uma posição antropocêntrica que exclui Deus do sentido da vida; efetivamente, se trata de uma filosofia deísta, crendo que “os deuses não interferem no mundo, ao contrário, vivem em profunda contemplação e beatitude”[16]; como disse Calvino eles “sonham com um Deus ocioso e inerte”[17].

Isso exposto brevemente, percebe-se que Epicuro e seus seguidores não criam em vida eterna, não criam em um Deus imanente e transcendente e viviam pela busca do prazer, sendo um tipo de hedonismo moderado. Não é muito diferente disso a perspectiva de muitas pessoas de hoje, que, parafraseando a citação de Paulo, dizem “comamos e bebamos, porque amanhã morreremos”, a saber, que se tenha prazer no essencial, pois afinal não há vida além dessa.

2.2. Relações entre Epicurismo e Cristianismo

Acerca do Epicurismo e o Cristianismo, primeiramente, podemos citar o Livro de Atos, na medida em que é perceptível da leitura do capítulo 17, versículos 18, que os filósofos ali citados se opuseram ao anúncio de Jesus Cristo e Sua ressureição. A rejeição por parte deles se encaixa perfeitamente com suas respectivas doutrinas filosóficas. Isto porque, de um lado, “o entendimento de uma divindade superior e distinta da realidade, mas que também interviesse na realidade era completamente estranho para esses filósofos”[18], e, de outro, porque não criam ou consideravam irrelevante a possibilidade de ressureição, por entenderem que a vida se desfaria com a dissolução das partes que compõem o corpo[19]. Assim, vemos que crenças já difundidas no período apostólico se mostram como as razões (ou as desculpas?) para a incredulidade e a rejeição de Cristo.

Ademais, enquanto o Epicurismo tem como objetivo de vida o maior prazer geral possível, desconsiderando a vontade e a existência de Deus, bem como a vida eterna, o Cristianismo tem como objetivo de vida glorificar a Deus e se satisfazer Nele eternamente.

Insta salientar, também, que Deus não é influenciado por correntes filosóficas, como se Seus Escritos inspirados pudessem ser indistintamente afetados por elas. Diferentemente disto, porém, elas podem ser utilizadas para o propósito Divino, embora jamais diretamente afetada por elas. Inclusive, a graça comum permite que mesmo correntes filosóficas ateias e incrédulas possam propagar verdades e bons valores. Neste sentido, destaque-se que muito daquilo que existe no Epicurismo já existia muito antes no Judaísmo (que naturalmente se desenvolveu para o Cristianismo), como, por exemplo, o controle das paixões.

Podemos encontrar no Epicurismo a defesa pelo prazer na simplicidade, o que em nada contraria as Escrituras e, assim, inclusive pode ser algo absorvido pelos Cristãos. Tal ideia, porém, não é novidade, pois no livro de Eclesiastes, escrito em algum momento entre X[20] ou VI[21] a III[22] a.C. (mais provavelmente em X a.C.), o autor e filósofo ensina que tudo é vaidade (Ec 1.2; 12.8; 1.4-11), incluindo a sabedoria (Ec 1.12-18), as posses (Ec 2.12-18) e o trabalho (Ec 1.18-23), sendo que, na realidade, “boa e bela coisa é comer e beber e desfrutar o que conseguiu de todo o seu trabalho, com que se afadigou debaixo do sol, durante os poucos dias da vida que Deus lhe deu; porque esta é a sua porção” (Ec 5.18). O grande diferencial, no entanto, é que o autor de Eclesiastes, após refletir sobre a vida, constata que nada faz sentido sem Deus e, assim, ao contrário dos Epicureus, conclui que para a alegria ser completa, é necessário se lembrar do Criador (Ec 12.1-7,13).

Outra correlação semelhante é encontrada ao observarmos que Deus promete ao Seu povo felicidade infindável para os que lhe forem fiéis, ainda que isso, em terra, custe a própria vida; Jesus diz o seguinte:

“Se alguém quer vir após mim, negue a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me, pois quem quiser salvar a sua vida a perderá; e quem perder a vida por minha causa, esse a achará. De que adiantará uma pessoa ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará uma pessoa em troca de sua alma? Porque o Filho do Homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um conforme as suas obras. (Mt 16.24-27).

No Antigo Testamento isso também não é diferente, mas Deus ensina que, no fim dos tempos, “muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, outros para vergonha e horror eterno” (Daniel 12.2). Logo, é evidente que haverá boa vida para os fiéis a Deus.

Acerca da busca humana pela felicidade, também Calvino ensina o seguinte:

O homem careceria do principal uso da inteligência se não encontrasse sua felicidade, cuja perfeição consiste em estar junto de Deus; por isso, a principal ação da alma é aspirar à felicidade perfeita; e, por esse motivo, quanto mais alguém deseja aproximar-se de Deus, mais prova estar dotado de razão[23]

A diferença essencial, portanto, entre essas duas doutrinas, é que o Epicurismo pensa somente na vida terrena e desconsidera por completo a existência de Deus, o juízo e a vida eterna, mas o Cristianismo considera todas essas coisas e entende que “o fim principal do homem é glorificar a Deus e deleitar-se nEle para sempre[24], conforme Rm 11.36, 1Co 10.31, Sl 73.24–26 e Jo 17.22–24.

Tal filosofia, portanto, em muitos pontos, combate frontalmente com a compreensão Bíblica Cristã Protestante Ortodoxa, a qual defende a manutenção da consciência após a morte na terra, a glorificação de Deus com satisfação Nele e a imanência Divina configurada por Sua clara atuação na terra, como se observa de Gênesis a Apocalipse, quando Deus cria o mundo, conversa com Adão e Eva, chama Abraão, fala com Davi, move nações para punir Israel, e, como ápice, vem Ele mesmo à terra para nos salvar!

3. CONCLUSÃO

Diante de tudo que foi exposto, conclui-se que há semelhanças entre o Epicurismo e a doutrina Cristã. No entanto, todos os pontos do Epicurismo aceitáveis para o Cristão já podem ser encontrados na Bíblia, ao passo que, no mais, essa filosofia resta totalmente incompatível com a fé Bíblica, e isso porque, a uma, a filosofia citada não acredita no único verdadeiro Deus, imanente e transcendente, e, a duas, porque embora em ambos os casos o prazer esteja ao menos incluso na finalidade principal do homem, o Epicurismo busca o prazer à parte de Deus e apenas nessa vida meramente terrena, enquanto a doutrina Cristã vê a principal finalidade do homem em glorificar a Deus ao ser satisfeito Nele e para sempre.

4. BIBLIOGRAFIA

CALVINO, João. A instituição da religião Cristã; Tomo I, Livros I e II. Tradução: Carlos Eduardo de Oliveira et al, e tradução do livro II, Carlos Eduardo de Oliveira. São Paulo: Editora UNESP, 2008.

EPICURO. Carta a Meneceu sobre a felicidade. Tradução e notas: Lúcio Jakobsmuschel. Montecristo Editora, 2019.

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Hansard Knollys, William Kiffin, John Harris, William Collins, Hercules Collins, Robert Steed, Leonard Harrison, George Barret, Isaac Lamb, Richard Adams, Benjamin Keach, Andrew Gifford, Thomas Vaux, Thomas Winnel, James Hitt, Richard Tidmarsh, William Facey, Samuel Buttall, Christopher Price, Daniel Finch, John Ball, Edmond White, William Prichard, Paul Fruin, Richard Ring, John Tomkins, Toby Willes, John Carter, James Webb, Richard Sutton, Robert Knight, Edward Price, William Phipps, William Hawkins, Samuel Ewer, Edward Man e Charles Archer. A confissão de fé batista de 1689; Um catecismo puritano compilado por C.H. Spurgeon.; tradutores: Camila Rebeca Vieira de Almeida Teixeira, William Teixeira Pedrosa, Rafael Junio Abreu. 9. ed. São Paulo: O Estandarte de Cristo, 2019.

LASOR, Willian; HUBBARD, David A; e BUSH, Frederic W. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2002.

OLIVEIRA, Francisco Eduardo de. EPICUREUS, ESTOICOS E A QUESTÃO DA RESSURREIÇÃO NO LIVRO DE ATOS DO APÓSTOLOS. Revista Relegens Théskeia. Vl. 10, nº. 1, 2021, Pp.336-345.

SILVA, Antonio Wardison C. O panorama histórico-filosófico no tempo de Paulo: O Helenismo. Revista de Cultura Teológica, vl. 18, nº. 72, out/dez, 2010, pp. 23-53.

SOCIEDADE BÍBLICA DO BRASIL. Bíblia da Fé Reformada. 2ª Ed. São Paulo: Fiel, 2020.

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STANIFORTH, Maxwell. Meditações: Marco Aurélio. Tradução: Luís A. P. Varela Pinto. S/E: Espinho/Portugal, 2002. Disponível em: < file:///C:/Users/07399617996/OneDrive%20-%20TJPR/Processos%20Geral/5.%20Ag.%20Sa%C3%ADda%20(R%C3%B4ney%20Faz)/meditacoes%20marco%20aurelio.pdf>. Acesso em: <05/12/2024>.

[1] GRANDE ENCICLOPÉDIA BARSA, vl. 7, 2004, p. 341 e 342 apud OLIVEIRA, 2021, p. 336

[2] OLIVEIRA, Ibid.

[3] JEAGER, 2001, p. 17 apud Oliveira, Ibid.

[4] OLIVEIRA, p. 337

[5] SILVA, p. 37

[6] EPICURO. Carta a Meneceu sobre a felicidade. Tradução e notas: Lúcio Jakobsmuschel. Montecristo Editora, 2019, p. 7

[7] Ibid., p. 8.

[8] Ibid., p. 7.

[9] Ibid., p. 8

[10] Ibid., p. 9

[11] Ibid., p. 8.

[12] Ibid., p. 9

[13] CORDEIRO, 2017, p. 242, apud OLIVEIRA, p. 338-339.

[14] MONDOLFO, R. O pensamento antigo, p. 93, apud SILVA, p. 38

[15] EPICURO. Carta a Meneceu sobre a felicidade. Tradução e notas: Lúcio Jakobsmuschel. Montecristo Editora, 2019, p. 9

[16] SILVA, Antonio Wardison C. O panorama histórico-filosófico no tempo de Paulo: O Helenismo. Revista de Cultura Teológica, vl. 18, nº. 72, out/dez, 2010, p. 37.

[17] CALVINO, João. A instituição da religião Cristã; Tomo I, Livros I e II. Tradução: Carlos Eduardo de Oliveira et al, e tradução do livro II, Carlos Eduardo de Oliveira. São Paulo: Editora UNESP, 2008, p. ??

[18] OLIVEIRA, p. 343

[19] Ibid.

[20] Bíblia de Estudo NAA, p. 1112

[21] LASOR, Willian; HUBBARD, David A; e BUSH, Frederic W. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2002, p. 543-545

[22] Bíblia de Estudo da Fé Reformada, p. 1074.

[23] CALVINO, Op. Cit., p. 179, sem grifo no original.

[24] Hansard Knollys, William Kiffin, John Harris, William Collins, Hercules Collins, Robert Steed, Leonard Harrison, George Barret, Isaac Lamb, Richard Adams, Benjamin Keach, Andrew Gifford, Thomas Vaux, Thomas Winnel, James Hitt, Richard Tidmarsh, William Facey, Samuel Buttall, Christopher Price, Daniel Finch, John Ball, Edmond White, William Prichard, Paul Fruin, Richard Ring, John Tomkins, Toby Willes, John Carter, James Webb, Richard Sutton, Robert Knight, Edward Price, William Phipps, William Hawkins, Samuel Ewer, Edward Man e Charles Archer. A confissão de fé batista de 1689; Um catecismo puritano compilado por C.H. Spurgeon.; tradutores: Camila Rebeca Vieira de Almeida Teixeira, William Teixeira Pedrosa, Rafael Junio Abreu. 9. ed. São Paulo: O Estandarte de Cristo, 2019, p. 90.

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